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DO LIVRO DAS EVIDÊNCIAS
Conheces o nome que te deram,
não conheces o nome que tens.
Em geral não se diz que uma
decisão nos aparece, as pessoas
são tão zelosas da sua
identidade, por vaga que seja,
e da sua autoridade, por pouca
que tenham, que preferem dar-nos
a entender que reflectiram antes
de dar o último passo, que
ponderaram os prós e os contras,
que sopesaram as possibilidades
e as alternativas, e que, ao cabo
de um intenso trabalho mental,
tomaram finalmente a decisão.
Há que dizer que estas coisas
nunca se passaram assim.
Decerto não entrará na cabeça
de ninguem a ideia de comer sem
sentir suficiente apetite,
e o apetite não depende da
vontade de cada um, forma-se
por si mesmo, resulta de objectivas
necessidades do corpo, é um
problema fisico-químico cuja
solução, de um modo mais ou
menos satisfatório, será
encontrada no conteúdo do prato.
Mesmo um acto tão simples como
é o de descer à rua a comprar
o jornal pressupõe, não só um
suficiente desejo de receber
informação, o qual, esclareça-se,
sendo desejo, é necessáriamente
apetite, efeito de actividades
físico-químicas específicas do
corpo, ainda que de diferente
natureza, como pressupõe
também, esse acto rotineiro,
por exemplo, a certeza, ou a
convicção, ou a esperança,
não conscientes, de que a
viatura de distribuição
não se atrasou ou de que
o posto de venda de jornais
não está fechado por doença
ou ausência voluntária do
proprietário. Aliás, se
persistíssemos em afirmar
que as nossas decisões somos
nós que as tomamos, então
teríamos de principiar por
dilucidar, por discernir,
por distinguir, quem é, em
nós, aquele que tomou a decisão
e aquele que depois a irá
cumprir, operações impossíveis,
onde as houver.
Em vigor, não tomamos
decisões, são as decisões
que nos tomam a nós. A prova
encontramo-la em que,
levando uma vida a
executar sucessivamente
os mais diversos actos,
não fazemos preceder cada
um deles de um período de
reflexão, de avaliação,
de cálculo, ao fim do qual,
e só então, é que nos
declararíamos em condições
de decidir se iríamos
almoçar, ou comprar o
jornal, ou procurar a
mulher desconhecida.
in José Saramago, "Todos os nomes"
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